terça-feira, 16 de setembro de 2008

Em busca de personagens...

Recentemente fiz uma viagem ao Rio de ônibus. Depois de muito tempo como frequentadora assídua de aeroporto, resolvi encarar todos os encantos de uma rodoviária de cidade grande. Tudo isso porque fiquei indignada com os preços da ponte aérea para quem precisa comprar sua passagem em cima da hora.
Como sou uma otimista convicta, comecei a pensar que a experiência seria enriquecedora como pesquisa de campo. Quando saí de São Paulo, estava cansada demais para pensar em qualquer coisa que não fosse levar o meu corpinho até o meu lugar no ônibus. Dormi nos primeiros segundos e só acordei no Rio.
Passei dias maravilhosos na cidade, como sempre. Na volta, na rodoviária do Rio, encontrei uma amiga que não via há muito tempo. No meio da conversa, contei da minha angústia em encontrar e fotografar pessoas que tivessem histórias interessantes para contar. Pessoas de todas as classes, raças e religiões com histórias capazes de fascinar seus ouvintes. "Quero personagens interessantes", eu dizia para ela.
De repente, sai do desembarque uma mulher negra, 50 e poucos anos, com um lenço estampado enrolado na cabeça. Ela vestia uma camisetinha pink e uma saia, bem acima do joelho, com estampas florais no mesmo tom da blusa. Primeiro, me chamou atenção o som dos seus tamancos, aqueles de madeira que foram moda há alguns anos, batendo no chão como se quisessem chegar no centro da Terra. Ela berrava para quem quisesse ouvir: "Eu não tenho medo não!!! Vai fazer o que?!? Vai me matar? É isso mesmo! Todo mundo sabe que só tem marginal aí! Tem esquema pra pegar droga nesses ônibus todos!!! Até com os policiais!" E apontava o dedo na cara dos policiais da rodoviária.
Eu comecei a rir sozinha. Ela passou do meu lado, me empurrou com uma de suas sacolas, me olhou e disse: "é tudo bandido!!!". A mulher fez um escândalo e eu achei que ela pudesse ser um bom personagem. Um personagem engraçado. Alguém interessante para bater um papo às 23h40, enquanto esperava a hora do meu ônibus sair. Por um segundo, pensei: "vou falar com ela!". Mas no segundo seguinte, lembrei: "Droga!!! estou sem minha câmera". E a fotógrafa ansiosa por novos personagem perdeu uma oportunidade por estar sem o seu instrumento de trabalho. Isso quase não acontece comigo! Mas aconteceu e eu perdi uma chance.
Às vezes tenho inveja dos repórteres de texto, eles só precisam do bloquinho e da caneta ou da própria memória para contar uma história. O repórter fotográfico não é ninguém sem sua câmera. A imagem ficou na minha cabeça mas não posso mostrá-la. Simplesmente porque não estava lá com o meu "corpo"... Estava só com a alma...

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Amanhã há de ser outro dia...

Hoje, fechei os olhos e lembrei... Com uma saudade que chega a doer mas que vai passar...

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Pedra do Arpoador, uma segunda-feira, às 16h51

Tenho uma facilidade incrível para guardar imagens na memória... Fecho os olhos e sou capaz de rever uma cena com uma riqueza de detalhes na qual poucos acreditariam. Talvez isso tenha alguma relação com o fato de eu ser fotógrafa, de ser uma apaixonada por imagens. Posso não guardar números, nomes e até palavras pouco usadas, mas imagens guardo muito bem. Resgatar uma cena significa ter de volta a sensação do momento, o cheiro, a temperatura e até o gosto associados a ela.
Este pôr-do-sol me preenche de paz. Sempre que sinto necessidade, fecho os olhos e evoco essas imagens. Imediatamente, sou impregnada pela maresia. Sinto o vento no meu rosto. Escuto o barulho das ondas que alcançam as pedras. As cores vão perdendo a saturação diante de um sol cada vez mais tímido. E até aquela agitação dos surfistas que esperam o sol baixar para entrar no mar soa como música para os ouvidos. Meu amor por este lugar é incondicional. Posso não voltar a morar no Rio, o que eu acho improvável, mas ele estará sempre comigo. Carrego na alma que reflete a paz que ele me dá.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Ser carioca...

O Rio de Janeiro é uma fonte de energia inesgotável pra mim. Sempre que preciso recarregar minha bateria vou direto pra lá. É a minha cidade. O lugar onde eu nasci, cresci e vivi coisas inesquecíveis. O lugar que está marcado em mim para sempre.
Os adeptos das longas sessões de terapia que me desculpem mas não há remédio melhor para as angústias da vida do que uma corridinha pela orla carioca ou um mergulho naquele mar gelado. Os que não gostam de corrida nem do mar, ainda podem tentar um pôr-do-sol no Arpoador. Eu recomendo.
Basta me conhecer um pouco para perceber que eu sou uma pessoa do dia e não da noite. Gosto da luz do sol. De ver o céu bem azul. De preferência sem nuvens. Se não for possível, que sejam bem branquinhas. Como se fossem algodões-doces no céu.
Na semana passada estive no Rio e vivi um domingo especial. Corri do Aterro do Flamengo até a Praia de Ipanema com meu irmão e minha cunhada. O sol estava bem forte, queimando a pele. Um céu que parecia feito sob encomenda. Um dia tão lindo que faz você se perguntar por que não pode viver dias assim todo dia.
Chegamos em Ipanema exaustos e eu fui direto mergulhar. Só quando voltei para a areia que percebi como estava com saudade do gosto de sal na boca e do cheiro que fica na pele. O mar estava bem agitado, assim como nós, torcedores fanáticos do Flamengo. Era dia de clássico: Flamengo X Vasco. Antes de sair da praia tive que tomar o tradicional mate de latão. Almoçamos no Da Silva, restaurante a kilo de Ipanema que faz você acreditar que o bacalhau é realmente um manjar dos Deuses, e fomos pra casa voando.
Entramos no Maracanã bem tarde, já estava lotado. Foi uma das poucas vezes que fomos de carro e foi um sufoco para achar vaga. Eu, Ricardo, Felipe e Rhani ficamos no lugar de sempre e vibramos junto com uma Nação eufórica. Ver o Flamengo ganhar de 3X1 do Vasco, no Maraca lotado, é uma das maiores alegrias que um flamenguista pode ter. Ganhar do Vasco é sempre uma delícia. A cidade ficou em festa.
Para fechar o dia do jeito que carioca gosta, um Baixo Gávea lotado de bandeiras do time mais querido do Brasil. No fim do dia, o bacalhau divino que comemos no almoço fez ainda mais sentido. Infelizmente, o Arpoador teve que ficar para o dia seguinte.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

"I don't know!!! I don't know!!!"

Devo confessar: sou completamente apaixonada pelos Beatles!!! Desde pequininha... É um dos cds que está sempre no meu som. Hoje fui assistir ao musical "Beatles num céu de diamantes". A peça está em cartaz na Sala Fernanda Montenegro, no Leblon.
Estava com a família inteira, todos beatlemaníacos de carteirinha, e ainda com a presença ilustre da Iandara. Minha prima querida que agora mora em Bishop's Stortford, cidadezinha inglesa e fofa, muito fofa.
O musical é formado por esquetes. Todas compostas por versões das canções da famosa banda inglesa. Todas lindas, é claro. Mas uma delas me emocionou bastante. Foi a interpretação de "Something". Na voz de uma das negras mais lindas que já vi, o refrão ganhou uma força capaz de alcançar os corações mais gelados que podem existir por aí.
Emocionada, comecei a pensar na minha vida... Em todas as possibilidades, na quantidade de caminhos que posso escolher seguir e procurei uma resposta... Pasmem, ela veio!!! Veio na voz da negra que, descobri depois, atende pelo nome de Kacau... "I don't know!!! I don't know!!!".
E a minha alma se encheu de alegria com a constatação de que é exatamente o fato de NÃO SABER que faz a vida ser tão deliciosa, tão mágica. Acho que a vida perderia toda a graça se eu conhecesse o meu destino. Se alguém, um dia, me entregasse um livro e dissesse: "Esse é o seu destino". Eu responderia: "Pode ficar com ele pra vc!!!". Ou guardaria numa caixa, muito bem guardado... A verdade é que eu nunca passaria para a última página. Quero descobrir cada linha, cada palavra desta história. O final não me interessa.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Meu Porto Seguro

O coração dispara sem que você possa controlar, parece até que falta ar para respirar. O corpo inteiro treme, mostrando que você perdeu o controle... Você sente medo, mas também é invadida por uma alegria inexplicável... Estar apaixonada é assim...
No primeiro dia em que peguei uma máquina fotográfica e consegui fazer minha primeira foto, entendi que não poderia mais viver sem essa sensação. Aqueles segundos, que antecedem a captura de uma imagem, são mágicos. Você vê, sente, pensa quase que automaticamente em qual seria a melhor opção técnica e faz. Enquanto isso, tem uma montanha russa dentro de você e uma voz dizendo: "Que foto! Que foto!"
Vivo a vida atrás de imagens. De personagens e lugares que possam me cativar sempre, me apaixono por cada um deles. Como fotógrafa, tenho a chance de viajar muito e já conheci lugares incríveis. Sei que tenho sorte de ter feito da minha grande paixão a minha profissão. E não perco uma oportunidade. Quando faço uma viagem com uma pauta já encomendada, não deixo de observar o que está ao redor. O Brasil é tão rico, a diversidade é tão grande. Cada lugar tem a sua beleza própria, e você deve se entregar a cada um deles como se fosse único. De coração aberto, alma limpa, sem qualquer preconceito... Todo lugar possui belas imagens, belas histórias, basta saber enxergá-las.
Às vezes é difícil ficar longe de casa... Você pode sentir falta de um porto seguro. Sou apaixonada pelo que faço. Sinto meu coração disparar, quando quero capturar uma imagem. Essa paixão pela fotografia e esse desejo de buscar o novo fazem com que eu não sinta tanta saudade de casa. Fiz da fotografia o meu porto seguro. É ela que faz meu coração bater mais forte. Minha grande paixão. Minha vida.
Ana Cecilia Acioli - Texto do livro "Brazil by Night"